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23 de Julho, 2021
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72,5% da população do Ceará é negra, aponta estudo; especialistas comentam

Por Bruno de Castro e Rafael Ayala

Estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece) indica o Ceará com 72,5% da população negra. O número é maior do que o levantamento anterior, em 2018, no qual 71% eram pretos/pardos.

Conforme nomenclatura oficial, determinada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população negra no Brasil é composta por indivíduos pretos e pardos.

Em números absolutos, o patamar atual equivale a mais de 6,6 milhões de pessoas – já que o cenário populacional considerado pelo Ipece foi o de que em 2019 o Ceará tinha 9.166.913 habitantes.

Brancos são 25,4%; amarelos, 1,4%; indígenas, 0,5%.

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A pesquisa foi feita com base em questionários aplicados em 14.937 domicílios de 88 municípios (o estado tem 184 cidades). E indicou ainda que o povo cearense é majoritariamente urbano, jovem e do sexo feminino. Todas as informações foram coletadas com base na autodeclaração dos entrevistados.

O QUE ESPECIALISTAS PENSAM A RESPEITO?
Para o historiador Hilário Ferreira, as conquistas do movimento negro ao longo do tempo estão fazendo com que as pessoas assumam a negritude de forma positiva. No entanto, ele chama atenção para o uso do termo pardo, apontando-o como uma questão muito complicada. No século XIX, explica, a expressão servia para designar o escravizado liberto.

“Ao longo da história, esse significado vai se alterando. Hoje, por exemplo, o pardo é um lugar nenhum. É um espaço também para aquele branco que quer se apropriar das conquistas de cotas e se dizer pardo. Mas há outros elementos, não só a cor da pele, porque existem negros da pele um pouco mais clara, e outros traços definem o que vem a ser o negro. É uma questão muito complicada a do pardo.”

Já para a assessora especial de Acolhimento aos Movimentos Sociais do Governo do Ceará, professora Zelma Madeira, o aumento do percentual de pretos é um sinal da força dos movimentos sociais pela busca e reconhecimento étnico. Segundo a doutora em Sociologia, dentro do movimento negro há mais uma afirmação de ser preto do que de ser pardo porque há uma crítica ao fenômeno da “pardalização”, que é uma discussão da mestiçagem no Brasil.

“Esse aumento de negros é sinônimo da luta dos movimentos sociais, antirracistas, do movimento negro, de positivar a pertença racial. Agora, você vê que mais de 60% são os pardos. É a mistura de grandes grupos étnicos que opera no Ceará. Grande presença da mistura de indígenas com negros, negros com brancos e é aí que nós temos o fenômeno da pardalização, criticados por alguns. De dizer que esses pardos, quando eles têm dificuldades de se aproximar mesmo dos negros, fragilizam essa pertença e o combate à discriminação racial contra a população negra”, destaca Zelma.

A professora chama atenção para uma particularidade do Ceará quanto ao percentual de negros. “Quando você você diz: tem 72% de negros, né? Aí você diz: mas, poxa vida, há no Ceará tanta dificuldade da identidade negra. Ela só aumenta por causa da pardalização. E a pardalização tem raízes na mestiçagem. Em uma mestiçagem que vai apostar no branqueamento. Eu sou pardo, mas eu sou pardo claro, eu quero sempre uma aproximação com os brancos e não uma aproximação com os negros”, alerta.

Para consultar o estudo na íntegra, clique aqui.
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