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Home»Opinião»Racismo contra delegada desmonta tese de que problema no Brasil é “de classe”
Ana Paula Barroso
Delegada Ana Paula Barroso foi vítima de racismo em loja da Zara em Fortaleza. Polícia apura o caso. [FOTO: POLÍCIA CIVIL DO CEARÁ]
Opinião

Racismo contra delegada desmonta tese de que problema no Brasil é “de classe”

Bruno de CastroBy Bruno de Castro20 de Setembro, 2021Updated:23 de Dezembro, 2021Sem comentários7 Mins Read
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Assim que tomei conhecimento do caso de racismo ocorrido numa loja Zara de Fortaleza contra uma delegada negra, minha vontade foi de imediatamente encaminhar o link da reportagem para uma (des)conhecida. Dias antes, num bate-papo despretensioso de alpendre e entre um gole e outro de cerveja, ela me fez dois questionamentos intrigantes (mas pertinentes ao senso comum):

1) “tu não fica constrangido por se dizer antirracista e ser ‘classe média'”?
2) “não é contraditório ser publicamente as duas coisas?”

Na cabeça dela, não é que alguém só possa ser militante antirracista se necessariamente for pobre. Não é esse o caso, embora seja a primeira associação que façamos. A perspectiva é mais grave. Para ela, o fato de eu ser “classe média” me blinda de sofrer racismo. Pois bem. O episódio da delegada prova justo o contrário. Põe por terra, numa demonstração didática, o frágil argumento de que o problema do Brasil é “de classe” e não “de cor.”

Uma delegada como a que sofreu racismo na Zara tem salário flutuante de R$ 16 mil a R$ 21 mil por mês. No apurado do ano, esse valor fica entre R$ 212 mil e R$ 282 mil, considerando o 13º e excetuando férias. Ou seja: trata-se de alguém com rendimentos bem acima da realidade média da população do Ceará, que “vive” com R$ 1.600/mês, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O cearense “vive” com menos de dois salários mínimos. Isso equivale a R$ 53 por dia, enquanto a delegada ganha, pelo menos, 14,8 vezes mais que isso. São R$ 533/dia. No mínimo.

Some a isso a estabilidade do serviço público e a posição de autoridade que ela tem ao ocupar um dos cargos mais altos do organograma da Polícia Civil. Dinheiro, status e poder. Nada disso a impediu de ser proibida de entrar numa loja de “luxo” de um shopping localizado em zona nobre da quinta maior capital do país. A cor da delegada chegou primeiro que a patente, o salário e a influência dela. Racismo, portanto, não é uma questão de classe, de desigualdade social. É de raça. De cor. E, no caso da delegada, também de gênero.

Então, cara (des)conhecida, não. Eu não me constranjo em me colocar publicamente como antirracista por ser uma pessoa “classe média”. Tampouco enxergo como contraditório o fato de ser militante e ter alguma condição financeira. E te digo o porquê: assim como a delegada, eu também sofro racismo quando entro numa loja “chique” e o segurança me acompanha em todas as seções. Quando a polícia me para na rua e faz um baculejo. Quando minha chefe, uma mulher branca, me compara a um traficante de drogas. Quando vou comprar algo na farmácia e o cara da “prevenção de perdas” não sai da minha cola. Quando o vendedor me barra na saída da livraria e diz que estou “levando algo por engano”. Tudo isso já me ocorreu.

Episódios como o da delegada são recorrentes. Acontecem todos os dias, dentro e fora de shoppings. Ao ponto de condicionarem a nós, pessoas negras, evitarmos andar em determinados espaços para não termos de passar pela saia justa de uma acusação, um olhar, uma perseguição, uma porta giratória travada, um alarme acionado ou mesmo uma abordagem violenta.

Sim, pessoas brancas! Nós, pessoas negras, precisamos pensar uma, duas, três vezes se vale a pena ir a determinados locais. Porque, ao contrário de vocês, que não precisam olhar ao redor pela perspectiva racial, nossa simples presença nesses espaços causa estranheza. Não importa o que você vista ou como fale. A cor da pele, da nossa pele, chega primeiro. E, com ela, todos os preconceitos de quem é racista e enxerga na gente apenas a possibilidade do roubo. É o velho debate sobre colorismo.

A diferença do ordinário para este caso da delegada é que a maioria das vítimas de racismo não tem um distintivo para mobilizar aparatos policiais e fazer o crime ganhar notoriedade em telejornais. Via de regra, quando a vítima reage, a situação ou é tratada com desdém (pela pessoa racista, pelo lugar onde ela trabalha (e que ela representa), pelas empresas de comunicação e, por fim, pela sociedade). Tudo é sempre vitimismo. Não foi desta vez porque uma comitiva policial foi acionada pela delegada, entrou no shopping, fez buscas na loja e encurralou o racista (que, como todo racista, se mostrou covarde e disse jamais ter tido a intenção de ser preconceituoso).

Uma mulher que ganha entre R$ 16 mil e R$ 21 mil tem dinheiro de sobra para comprar qualquer item da Zara. Não que o deva, visto o histórico de denúncias de trabalho análogo à escravidão ao qual a loja está ligada em várias denúncias judiciais. Mas essa mulher teria renda pra pagar à vista, em dinheiro. E está longe de ser a dona Mariazinha do Pirambu, que vive de salário mínimo e, na atual conjuntura de um Brasil decadente e trôpego, trocou carne por ovo pra não morrer de fome e/ou faz sopa de osso sem tutano, antes dado aos cachorros, pra não dormir de barriga vazia.

Negra, esta delegada foi barrada porque quem fala por ela é a pele, não o contracheque. Porque, para o segurança, uma pessoa treinada para enxergar sujeitos negros como perigosos, aquele lugar, uma marca que em países europeus é tal qual uma loja de departamento comum aqui do Brasil, não é o lugar dela. É o lugar de madames brancas com seus cachorros cafonas em passeios cafonas de shoppings cafonas.

Pouco importa o quanto ganha a delegada ou o tanto de zeros que tem na conta bancária. Ela permanece sendo negra. Uma mulher negra, indivíduo com a maior soma de marcadores sociais de opressão, conforme precisamente teorizam intelectuais como Patrícia Hill Collins, bell hooks, Sueli Carneiro, Gayatri Spivak e Djamila Ribeiro, para citar algumas.

É exatamente esta lógica perversa (de estarmos diante verdadeiramente de uma questão de raça e não de classe) que faz Beyoncé, uma das mulheres mais ricas e influentes do mundo, sofrer até hoje ataques covardes sobre sua negritude. O mesmo vale para Jay-Z, o marido, e os três filhos da cantora, que de forma recorrente são chamados de macacos nas redes sociais.

O racismo pós-escravidão, notadamente o pós-Ditadura, nem sempre se manifesta de forma escrachada. A bem da verdade, quase nunca. Os tempos modernos, marcados pelo avanço dos direitos civis (decorrentes de muita pressão popular) e pelo esconderijo seguro que a Internet oferece aos covardes, aperfeiçoaram formas e hoje em dia quase tudo ganha contornos sutis.

“Todos” querem ser racistas sem ser desmascarados como tais. “Ninguém” quer ser como o policial branco que nos últimos dias admitiu, aos gritos, ser racista enquanto discutia com a esposa sobre “o filho negro” dela. É mais cômodo compartilhar o vídeo que viralizou e se mostrar publicamente chocado com o que ele diz, condená-lo, cancelá-lo, abominá-lo, mal dizê-lo. Ser antirracista da porta pra fora virou moda. Inclusive entre racistas.

Mas a grande verdade é que se a delegada não fosse delegada esse seria só mais um crime de racismo cometido por funcionários de lojas e shoppings contra pessoas pretas. Fosse ela uma “qualquer”, a notoriedade do caso sequer existiria. A gente banalizou o preconceito racial de uma forma que ele mata um jovem negro a cada 23 minutos no Brasil.

E a vida segue.

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Colorismo: ser “negro de pele clara e classe média” não me protege do racismo
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Bruno de Castro

Comunicólogo e mestre em Antropologia. É especialista em Comunicação e Jornalismo Político e em Escrita Literária. Também tem MBA em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais. Foi repórter e editor dos jornais O Estado e O POVO, correspondente do portal Terra, colaborador do El País Brasil e assessor de órgãos públicos. Venceu 19 prêmios em diversas áreas. É agente de linguagem simples e autor de oito livros. Foi finalista do Prêmio Jabuti de Literatura com o livro escrito em homenagem à mãe.

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