Iza esteve neste sábado (6/12) em Fortaleza para ser a cantora principal da terceira noite do festival Elos. Minutos antes de subir no palco, montado na Praia de Iracema, principal cartão postal da cidade, ela conversou com o Ceará Criolo. Falou sobre o novo álbum, de reggae, que lança em 2026, dizendo o quanto esse novo estilo tem significado pra ela, permite que “mergulhe mais profundo” em si mesma e, ao mesmo tempo, mostra a riqueza da cultura negra pro mundo.
A carioca também revelou como te se relacionado com as redes sociais, onde mulheres negras são as principais vítimas de ataques e as pessoas estão sempre a postos para ditar como negros e negras devem se comportar, vestir, amar etc. E admitiu que precisa de muita terapia para lidar com isso da melhor forma possível.




Iza cantou por uma hora e apresentou aos fãs um repertório que reuniu os principais sucessos dela, incluindo “Caos e sal”, um dos novos singles de reggae. Veja:
Fé
Dona de mim
Gueto
Mega da virada
Meu talismã
Mó paz
Sem filtro
Saudade daquilo
Fé nas malucas
Que se vá
Caos e sal
Ginga/Andar com fé
Brisa
Pesadão
Por diversas vezes, ela declarou amor a Fortaleza e disse o quanto estava feliz por voltar à cidade. Levou a galera ao delírio! Antes, nos bastidores, chegou a afirmar à imprensa que moraria na capital cearense por sentir-se sempre muito acolhida.
“Eu me sinto muito em casa aqui. E quando eu digo que me sinto em casa, não tô falando que aqui parece o Rio de Janeiro não. Isso aqui é outro rolê. É outra coisa. Eu me sinto abraçada aqui de outra forma. Eu tenho vontade de passar um bom tempo aqui. Sinto isso em poucos lugares do Brasil. Eu tenho vontade de estar em todos os lugares. Mas explorar? Eu moraria aqui em Fortaleza facilmente, sabe? Pela juventude, pelas pessoas, pela qualidade de vida, esse vento… Eu acho que é um lugar em que eu me sentiria muito feliz”.
O Ceará Criolo foi o único veículo negro a entrevistá-la com exclusividade. Confira o papo:
CEARÁ CRIOLO: Iza, se você subisse ao palco sem fazer nenhuma referência à cultura negra no teu som, só pelo fato de você ser uma mulher preta, isso já faria do teu show um ato político. Mas você já disse que teu álbum novo vai ser um mergulho na tua ancestralidade. De que forma isso se materializar no trabalho? O que a galera pode esperar?
IZA: Eu me sinto muito à vontade pra estar no palco e falar as coisas que eu penso. Às vezes, me dá a doida e eu começo a falar umas coisas que me dão vontade. Eu nem sei te explicar o porquê, mas elas vêm na hora e acaba rolando. E eu acho que o reggae tem muito disso. Eu acho que o reggae é um som de discussão, um som de convocação. Eu acho que é um som político. É um som que reúne de tudo de mais bonito que eu acho que a música preta tem. Você pode colocar o R&B ali dentro, rock, pop…
CEARÁ CRIOLO: E você meio que já passeou por aí quando lançou “Brisa” lá em 2019…
IZA: É, né? “Brisa”, “Let me be the one”, “Pesadão”… Essa é uma coisa que faz parte da minha vida. E eu acho que eu tenho me sentido mais corajosa pra ir pra um lugar que faz muito sentido pra mim e que, ao mesmo tempo, vai ser novo pra algumas pessoas me verem nesse lugar. Artisticamente, isso é muito desafiador. E muito bom. Isso é uma coisa que me dá vontade ainda mais de fazer isso.
Porque eu acho que ser artista é isso: é você mergulhar dentro de si. É olhar pra dentro e, ali dentro, você encontrar alguma coisa que, de alguma forma, se conecta com outras pessoas. E o reggae me faz mergulhar mais profundo. Porque é um som mais visceral pra mim. É uma coisa que me faz bem. E eu acho que isso vai refletir na minha performance. Eu espero que as pessoas gostam.


CEARÁ CRIOLO: Por ser uma mulher negra, você é alvo fácil de críticas nas redes sociais. Como você lida com isso? Simplesmente ignora? Bloqueia? Restringe comentários?
IZA: Tem coisas que são muito, muito importantes, que a gente não pode ignorar. Mas a partir do momento em que a gente tá existindo e fazendo o nosso trabalho, eu preciso estar com minha terapia em dias pra entender que a gente se movimentando vai acabar provocando outras pessoas. Que as nossas escolas do que falar, do que fazer e do que vestir vão acabar atravessando as pessoas. E eu acho que tem que ter uma tranquilidade pra entender, observar e não se permitir atravessar por isso. Eu, criativamente falando, não vou em rede social. Porque como eu tô criando música, show e fazendo direção criativa, eu não quero me poluir. E eu sou muito frágil, na verdade…
CEARÁ CRIOLO: Existe esse mito da mulher negra forte…
IZA: É, algumas pessoas acham que eu não ligo porque eu sou forte. Mas eu não vou lá porque meu medo é acreditar no que eu tô lendo. Então, minha forma de lidar com isso é não ir lá. Porque eu sei que as pessoas vão falar algumas coisas e podem ser cruéis.
CEARÁ CRIOLO: Não só podem como são, né, Iza? Sua vida é uma prova disso…
IZA: É. As pessoas são cruéis nas redes sociais. E elas fazem isso de um lugar de frustração, porque queriam me ver de outra forma, queriam me ver com outra pessoa, queriam me ver de outro jeito… E eu entendo que isso é uma coisa que acaba acontecendo quando você é uma pessoa pública. Acaba rolando uma impessoalidade. As pessoas esquecem que você tem o seu livre arbítrio, né?
Isso é muito interessante: quanto mais você vai navegando por isso e vai entendendo que você vai movimentando, pro positivo e pro negativo, algumas coisas e quando você percebe que a sua vida segue, isso é muito importante. Mas eu ouço. Aquilo que faz sentido pra mim, eu ouço. Porque eu sei também que algumas coisas vem do lugar do carinho. E gente que é doida é doida Mesmo, né? Não faz sentido.

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Comunicólogo e mestre em Antropologia, é especialista em Jornalismo Político e Escrita Literária e tem MBA em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais. Foi repórter e editor dos jornais O Estado e O POVO, correspondente do portal Terra e colaborador do El País Brasil. Atua hoje como assessor de comunicação. Venceu o Prêmio Gandhi de Comunicação, o Prêmio MPCE de Jornalismo e o Prêmio Maria Neusa de Jornalismo, todos com reportagens sobre a população negra. No Ceará Criolo, é repórter e editor-geral de conteúdo. Escritor, foi finalista do Prêmio Jabuti de Literatura 2020.
