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Home»Colunas»O timing irônico entre a fala de Xuxa e o episódio de “Falcão e Soldado Invernal”
Pôster Falcão e Soldado Invernal
Foto: Divulgação
Colunas

O timing irônico entre a fala de Xuxa e o episódio de “Falcão e Soldado Invernal”

Eduarda PorfírioBy Eduarda Porfírio28 de Março, 2021Updated:5 de Abril, 2021Sem comentários6 Mins Read
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Sextas-feiras costumam ser dias de episódios novos da série “Falcão e Soldado Invernal”, no Disney Plus, desde 19 de março. No episódio desta semana, fomos apresentados a Isaiah Bradley (Carl Lumbly), o primeiro Capitão América, negro, que existiu muito antes de Steve Rogers, a versão embranquecida e vendida como única por Hollywood nos cinemas.

Bradley participou, junto com um batalhão de soldados negros, de um experimento do soro supersoldado, mas só ele sobreviveu. Eu estava guardando a história de Isaiah para um outro momento aqui da Afrogeek. Porém, no mesmo dia em que ele apareceu no Universo Cinematográfico da Marvel, Xuxa Meneghel defendia numa live da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) o uso de pessoas privadas de liberdade em testes de remédios e vacinas antiCovid. Segundo ela, “pelo menos assim eles serviriam para alguma coisa antes de morrer.”

Isaiah Bradley em "Falcão e Soldado Invernal", Isaiah Bradley em "Verdade - vermelho, negro e branco"
Foto: Reprodução Marvel Studios/Marvel Comics/Divulgação

O timing desses dois eventos é interessante. Explico o porquê. Mas, antes, lembro que cerca de 64% da população encarcerada no Brasil é negra, de acordo com dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen). Estima-se que houve um crescimento de 14% nos últimos 15 anos da população negra nos presídios, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 2019.

Ou seja: defender que medicamentos e vacinas sejam testados em pessoas encarceradas (à revelia delas) é retroceder na história para uma época na qual pretos eram usados como cobaias por serem tidos como “inferiores”. Essa era apenas uma das ideias da Teoria Eugenista, cujo autor é Francis Galton (é sempre bom guardar nomes, para que nada caia no esquecimento).

Não consegui parar de pensar em tudo isso desde que assisti o episódio de Bradley, no sábado. E lembrei do primeiro Capitão América. Ele é um dos protagonistas de “Verdade – Vermelho, branco e negro”, uma história em quadrinhos com sete edições escrita pelo falecido já falecido Robert Morales, desenhada por Kyle Barker e publicada em 2003 no Brasil.

Capa de "Verdade - Vermelho, branco e negro"
Foto: Reprodução/Marvel Comics

Baseada no caso Tuskegee, no qual médicos eugenistas decidiram testar um remédio para sífilis em moradores da cidade de Tuskegee, no estado norte-americano do Alabama, sem o consentimento deles, entre 1932 a 1972, a HQ conta a história de um batalhão de soldados negros usado como cobaia para o desenvolvimento de um soro especial.

Nenhum deles consentiu participar do estudo. Sequer sabiam o que estava sendo feito, assim como os habitantes de Tuskegee, informados apenas de que tinham “sangue ruim” e teriam toda a assistência necessária, não sabiam dos testes do remédio para sífilis. Promessas vazias. Não preciso dizer a cor da população de Tuskegee, não é?

Além do grupo de Isaiah, outro super-herói foi submetido a experimentos forçados. Luke Cage, o Poderoso, é “convencido” a participar de um experimento para um novo soro de supersoldado. Diferente de Bradley, ele não teve que disputar uma guerra que não lhe pertencia. 

O PRIMEIRO CAPITÃO AMÉRICA

Isaiah Bradley era um pracinha e foi convocado para a Segunda Guerra Mundial, para um batalhão de soldados negros dos Estados Unidos em 1942. Devido à cor, eles eram segregados e não tinham os mesmos direitos dos militares brancos. A esposa do primeiro Capitão América estava grávida do filho primogênito quando ele é alistado.

Ao lado dele, Maurice Canfield, um comunista que vai para o conflito a fim de fugir da prisão, e o sargento Lucas Evans, que vê na guerra uma nova possibilidade de carreira, já que foi rebaixado por causa de um episódio de racismo, dividem o protagonismo em um dos quadrinhos mais pesados e emocionantes que li até agora.

Batalhão de super soldados negros em "Verdade- vermelho, branco e negro"
Foto: Reprodução/Marvel Comics

Certa noite, os três são levados para um treinamento especial, sem armas ou qualquer coisa que possam usar para se defender. São escolhidos 300 soldados para esse experimento. As famílias, no entanto, são avisadas que todos morreram devido a um “acidente com explosivos.”

Eles de fato, eventualmente, morrem. Alguns por causa dos testes, do modo mais violento possível: sem poderem dizer não, sem saberem a que estão sendo submetidos. Encontram na morte paz e alívio. Os outros morrem durante os conflitos contra os alemães ou brigando entre si.

Só resta Isaiah, que ainda permanece na luta pela chance de a família ter a oportunidade de viver nos Estados Unidos. Chega a ser piada. No que o racismo estadunidense difere do racismo nazista? Qual era a diferença entre viver na Alemanha de Hitler e no Tio Sam com suas leis Jim Crow? 

Isaiah Bradley como Capitão América em "Verdade - vermelho, branco e negro"
Foto: Reprodução/Marvel Comics

Ele arranja para si o uniforme usado por Steve Rogers (ironicamente, circulava por aí uma história sobre um tal Capitão América, muito similar ao que foi vivido pelos soldados do batalhão de Bradley) e parte para a luta com seu próprio escudo. 

Depois de facilitar a situação dos países aliados na Segunda Guerra, Isaiah é capturado pelos alemães. O Capitão América encontra Hitler, que tenta convencê-lo a ir para o lado da nação do Eixo, uma referência à propaganda alemã feita na época com os soldados negros. Não há como não rir diante das mentiras do torturador, que se vale do racismo nos EUA como argumento. Bradley, por óbvio, nega a vontade do fuhrer. 

Os alemães, então, o esterilizam forçadamente (como fizeram com as crianças pretas da Alemanha nazista). Isaiah é resgatado pela resistência alemã e belga, sendo mandado de volta aos Estados Unidos. Ele é condenado à prisão perpétua pelo roubo do uniforme do Capitão América. Foi isso que ganhou por arriscar a vida constantemente pelo país que o violentava todos os dias. 

CONSEQUÊNCIAS E LEGADO

Isaiah ficou preso por 17 anos, só conseguindo a liberdade após a esposa muito pelejar enviando cartas constantemente ao presidente Dwight D. Eisenhower. O herói só foi absolvido na posse de John F. Kennedy. Como resultado dos anos de reclusão e da tortura sofrida na Alemanha nazista, o cérebro de Bradley retrocedeu ao de uma criança. E não teve direito a tratamento porque o Departamento de Veteranos do Exército dos EUA não podia lidar com as consequências de um projeto que “nunca” existiu. 

Mas a história de Isaiah se espalhou por toda a comunidade negra do universo Marvel. Figuras como Pantera Negra, Luke Cage e o próprio Falcão (Sam Wilson) o têm como ídolo. Além disso, o legado de Bradley se fez presente com o neto Elijah, o Patriota.

HQ Jovens Vingadores #1
Foto: Reprodução/Marvel Comics

O super-herói adolescente foi o primeiro líder dos Jovens Vingadores, herdou os poderes do avô e apareceu junto com ele no segundo episódio de “Falcão e o Soldado Invernal”. É bom ver que as produções da Marvel estão ultrapassando os limites da ficção e trazendo questões relevantes da realidade. Sem falar da importância de crianças e adolescentes terem acesso a esses personagens tão potentes.

eduarda porfirio ceara criolo
Eduarda Porfírio

Estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará, foi repórter no Grupo de Comunicação O Povo. Comentarista do programa Último Tempo, na webrádio Cruzamento da turma da UFC de 2017.2. É formada em balé clássico pela Escola de Ballet Janne Ruth. Gosta de ficção científica, um bom romance clichê e é apaixonada por futebol, super-heróis e arte.

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