As irmãs Verônica e Valéria Carvalho receberão o título de doutoras honoris causa da Universidade Regional do Cariri (Urca). A homenagem já foi aprovada pelo Conselho Superior da instituição. Trata-se de um reconhecimento à relevante contribuição dada por elas à luta antirracista no Ceará e à difusão de conhecimentos ancestrais negroafricanos no estado. Descendentes de quilombolas originários do Piauí, as gêmeas nasceram em Crato, onde vivem, e são cofundadoras do Grupo de Valorização Negra do Cariri, o Grunec, que desde 2001 promove o controle social de políticas públicas e tensiona governos a avançarem no combate ao racismo. Além disso, ambas…
Autor: Bruno de Castro
Dentro de um vestido verde escuro brilhante, Luedji Luna mais parecia uma esmeralda de 1,80 metro. A baiana hipnotizou os três mil fãs que a assistiram cantar por uma hora e meia os maiores sucessos de uma das mais icônicas vozes negras da história da humanidade em comemoração aos três anos da Estação das Artes, um dos maiores complexos culturais de Fortaleza. Em “Luedji Luna canta Sade”, a homenagem à britânica-nigeriana Helen Folasade Adu, artisticamente conhecida como Sade e cuja carreira está em alta há 43 anos, o público oscila dos sucessos mais antigos aos mais recentes. Mas nenhum deles…
A primeira vez que fui chamado de “doutor” eu tinha sete anos. Talvez oito. Foi uma tia, a quem ofereci um copo de soro caseiro por vê-la esbaforida após um passamento. Ela bebeu, melhorou e disse: “obrigado, dotô Bruno”, como quem me dá um prêmio por tê-la “curado” milagrosamente com uma garapa de água, sal e açúcar, receita aprendida dias antes na escola. Depois disso, a vida me ensinou que eu não podia ser “doutor” porque no Brasil “doutor” é título de gente importante – médico, advogado e, sobretudo, gente rica. E branca, coisa que eu, um menino negro, de…
“O que ela tinha de partida, eu tinha de chegada. O que eu precisava de saudade, ela precisava de refúgio. E, assim, todo dia passou a ser de completudes, de declarar sentimentos e falar das coisas bonitas.” Página 89 do livro “E, no princípio, ela veio” Com dificuldade, a voz, gasta pelo tempo, cantava: adeus, amor// eu vou partir// ouço ao longe um clarim…// E esse era o único som ao redor. Em silêncio, nós assistíamos à cena e chorávamos. Temíamos ser aquele o começo do fim. Uma valsa da saudade, tal qual a música que mamãe se esforçava para…
“Acabou-se, ela, antes de acabar. Mas ninguém acaba! Acaba. Não acaba! Nem quando morre? Nem quando morre. Porque quando morre a gente continua pelo amor de alguém. Pois é isso o amor: uma continuação da gente. Mesmo que de alguma forma a gente finde.” Página 97 do livro “E, no princípio, ela veio” Em meio ao turbilhão de informações que recebi em poucas horas no hospital, uma me colocou em alerta. Confirmado o acidente vascular cerebral, seria determinante para a qualidade de vida de mamãe iniciarmos a reabilitação dela o quanto antes. Do contrário, correríamos o risco de sequelas permanentes…
“Eu percebi que diante de mim não estava só alguém cujo tempo caminhava para o eterno. Era o meu futuro que eu encarava no colo.” Página 103 do livro “E, no princípio, ela veio” Depois de 16 dias de internação por conta do AVC e das complicações dele decorrentes, nossa volta para casa foi, ao mesmo tempo, deslumbre e desassossego. Deslumbre porque mamãe estava viva. Com muitas limitações, mas longe de um estado vegetativo. E eu, que a vi desacordada no leito 6001.1 e cheguei a desacreditar no reencontro dos nossos olhos, compreendia nossa alta hospitalar como uma chance de…