Autor: Bruno de Castro

Comunicólogo e mestre em Antropologia. É especialista em Comunicação e Jornalismo Político e em Escrita Literária. Também tem MBA em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais. Foi repórter e editor dos jornais O Estado e O POVO, correspondente do portal Terra, colaborador do El País Brasil e assessor de órgãos públicos. Venceu 19 prêmios em diversas áreas. É agente de linguagem simples e autor de oito livros. Foi finalista do Prêmio Jabuti de Literatura com o livro escrito em homenagem à mãe.

A primeira vez que fui chamado de “doutor” eu tinha sete anos. Talvez oito. Foi uma tia, a quem ofereci um copo de soro caseiro por vê-la esbaforida após um passamento. Ela bebeu, melhorou e disse: “obrigado, dotô Bruno”, como quem me dá um prêmio por tê-la “curado” milagrosamente com uma garapa de água, sal e açúcar, receita aprendida dias antes na escola. Depois disso, a vida me ensinou que eu não podia ser “doutor” porque no Brasil “doutor” é título de gente importante – médico, advogado e, sobretudo, gente rica. E branca, coisa que eu, um menino negro, de…

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“O que ela tinha de partida, eu tinha de chegada. O que eu precisava de saudade, ela precisava de refúgio. E, assim, todo dia passou a ser de completudes, de declarar sentimentos e falar das coisas bonitas.” Página 89 do livro “E, no princípio, ela veio” Com dificuldade, a voz, gasta pelo tempo, cantava: adeus, amor// eu vou partir// ouço ao longe um clarim…// E esse era o único som ao redor. Em silêncio, nós assistíamos à cena e chorávamos. Temíamos ser aquele o começo do fim. Uma valsa da saudade, tal qual a música que mamãe se esforçava para…

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“Acabou-se, ela, antes de acabar. Mas ninguém acaba! Acaba. Não acaba! Nem quando morre? Nem quando morre. Porque quando morre a gente continua pelo amor de alguém. Pois é isso o amor: uma continuação da gente. Mesmo que de alguma forma a gente finde.” Página 97 do livro “E, no princípio, ela veio” Em meio ao turbilhão de informações que recebi em poucas horas no hospital, uma me colocou em alerta. Confirmado o acidente vascular cerebral, seria determinante para a qualidade de vida de mamãe iniciarmos a reabilitação dela o quanto antes. Do contrário, correríamos o risco de sequelas permanentes…

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“Eu percebi que diante de mim não estava só alguém cujo tempo caminhava para o eterno. Era o meu futuro que eu encarava no colo.” Página 103 do livro “E, no princípio, ela veio” Depois de 16 dias de internação por conta do AVC e das complicações dele decorrentes, nossa volta para casa foi, ao mesmo tempo, deslumbre e desassossego. Deslumbre porque mamãe estava viva. Com muitas limitações, mas longe de um estado vegetativo. E eu, que a vi desacordada no leito 6001.1 e cheguei a desacreditar no reencontro dos nossos olhos, compreendia nossa alta hospitalar como uma chance de…

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“Vai ver a fé é isso mesmo. Uma inocência. Uma abstinência do perverso. O avesso da ruindade. Fé é o que a gente enxerga quando o mundo inteiro está cego”. Página 27 de “E, no princípio, ela veio” As sequelas do AVC de mamãe demandaram de mim ser um tanto de tudo. A impossibilidade – logística e, sobretudo, financeira – de ter profissionais da saúde 24 horas conosco ou à nossa disposição, tal qual acontecia no hospital -, me levou a observar procedimentos, tirar dúvidas e pedir orientações. Não para fazê-los por conta própria. O medo do desconhecido e a…

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“Se te oferecerem uma prece, aceite. A oração é o que de mais poderoso uma pessoa pode te dar”. Página 27 de “E, no princípio, ela veio” Tão importante quanto manter as terapias em casa é contar com cuidadores(as) de confiança. No começo, eu tentei lidar sozinho com tudo o que o AVC nos impôs. A vontade de garantir o melhor para mamãe era tamanha que me convenci de que daria conta. Pensava também que meu modo de fazer era o único a suprir todas as novas necessidades da Terezinha causadas pelo derrame. Afinal, estranho nenhum conhecia mais do que…

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