“Eu não seria mais um choro contido
dali a algum instante
ou dali a alguma eternidade.
Seria como ela, derramada.
Um choro derramado.
Ouvira isso dela uma vida inteira:
“no mundo, meu filho, se derrame”.
Deu.
Amou.
Derramou”.
Páginas 98 e 99 de “E, no princípio, ela veio”
Mamãe morreu por complicações do AVC às 23h10min de 30 de novembro de 2024. Assim como na noite na qual sofreu o derrame, sete anos e dois meses antes, ela dormia. A respiração diminuiu, diminuiu, diminuiu, até parar de vez. Após 18 noites de muitas dores causadas pelo novo quadro cardíaco decorrente do derrame, de ter água nos dois pulmões e de enfrentar uma pneumonia por broncoaspiração, ela teve o fim que pedi aos orixás. Se foi serena.
Quinze dias depois, estávamos a caminho do povoado no qual ela, em 1928, nasceu e viveu até os sete anos. De onde saiu para Fortaleza, para nós, e retornou sempre que possível. Eu, Neide, Socorro e papai voltamos ao lugar que por tantas vezes serviu de esconderijo para mamãe. Um lugar com nome de mel – Jandaíra -, anunciado desta vez por ipês amarelos – e não por borboletas amarelas, como ousei escrever em um livro para ela – na estrada desde a Ladeira Grande.
Lá, ipê é “pau d’arco” e o tempo corre noutro tempo. Talvez por isso tenha sido tão emocionante chegar à capelinha na Estrada da Jandaíra, onde duas décadas atrás morava um homem que eu pensei ser imortal até que um dia morreu, e me deparar com uma árvore alta, frondosa e de um amarelo intenso ao lado da construção na qual celebraríamos uma missa para mamãe.

Eu falei das coisas bonitas que vivemos juntos, apesar do AVC – ou justo por causa dele. Lembrei do quão desafiador ele foi, em especial no começo, quando a Internet, que poderia ter sido uma grande aliada, acabou mais por confundir do que ajudar, tamanho o desencontro de informações, e, por isso, me fez acreditar ainda mais nos profissionais de saúde com quem contávamos.
Recordei que nem tudo é tão lindo quanto postamos no Instagram; como não foi nada bonito quando uma pequena (e única) escara surgiu em mamãe. E como as certezas do início não eram as mesmas do final. “Há bem pouco tempo, se pensava que só mudando a pessoa totalmente de decúbito, girando todo o corpo em torno de 45 graus e a cada três horas, era possível evitar feridas. O entendimento hoje é de que basta alterar um pouco a posição do paciente e, assim, já é garantido o alívio necessário para evitar a escara. De toda forma, é preciso muita atenção. As úlceras por pressão, se não tratadas adequadamente, podem ter consequências sérias”, nos informou a enfermeira estomaterapeuta Lídia Meneses, em meio ao um ano de tratamento até conseguirmos fechar a lesão.
Ali, na Jandaíra, eu falei de uma Terezinha da qual me orgulhei por, mesmo com tantas dificuldades de deglutição causadas pelo AVC, jamais rejeitar as ofertas de sucos e sopas nas sessões de fonoterapia. E nunca recusar algum exercício da fisioterapia, por mais maçante que isso pudesse ser no dado momento do caminho no qual não havia mais esperança de se voltar a andar. E por sempre colaborar com quem quer que fosse o(a) enfermeiro(a) ou médico(a) a trocar a sonda nasoentérica.
Meu sentimento me dizia que isso era mais por mamãe ser a pessoa cheia dos afetos que era e menos pela pessoa que convivia com sequelas de um AVC traiçoeiro. O silêncio dos mini-derrames sobre as palavras não permitiu que ela me falasse isso. As evidências eram os tantos relatos de gratidão que recebemos sobre o que a Terezinha havia feito pelos outros enquanto era sadia, inclusive por pacientes por ela tratados e que tinham o que ela teve.
Foi quando decidi: ao voltar para casa, para o lugar onde vivemos os instantes mais bonitos, faria ser dos outros o que havia sido de mamãe. Tudo. Da mais básica das informações à maca na qual ela dormiu. Levaria a tantas pessoas possíveis o livro e o documentário que fizemos sobre ela, sobre o impacto do AVC em nossas vidas e sobre nossa inversão de papéis, disso decorrente.
O derrame tornou mamãe um pouco mãe de muitas gentes, com as quais a divido por ter aprendido que dividir é, na verdade, multiplicar. E sei disso porque em todos os dias nos quais vivemos sob o mesmo teto nos últimos 14 anos não houve um só no qual eu não tenha dito o quanto a amo. Sim, amo. Ainda. No presente do indicativo. E ter falado isso tantas e tantas vezes é o que me faz sentir alguma paz agora, sem ela aqui. Não há remorso.
O tempo, este senhor de tudo, vai se encarregar de transformar a dor de agora em uma saudade boa, que eu vou sentir sempre que voltar às construções da infância dela (e minha) ou quando eu ouvir o sincerro de metal da criação fazendo barulho entre as bananeiras da Jandaíra. Ou diante da cantoria da cigarra, da qual Terezinha era gêmea. E sempre que eu conseguir sentir a chuva primeiro pelos ouvidos, no som da água caindo longe e se aproximando de onde eu estiver. Um aguaceiro todinho de solidariedade e esperança.

Por isso, tudo quanto pertenceu à mamãe se transformou em doações Fortaleza (CE) adentro e afora. Todas para famílias com pessoas convivendo com sequelas do AVC. Dietas, frascos, equipos, seringas, fraldas, colchões, maca, tudo foi para dona Otília, para o sogro do Cristiano Franklyn, para a avó da Aline Fernandes, para a irmã da Yraides Alencar, para o pai da Danny Moreira, para a avó da Priscila Albuquerque e para uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (Ilpi). Para quem precisava. E ter condições de fazer isso foi tipo escrever um poema com a vida ou encontrar uma parte de mim em alguma vereda pela qual mamãe também andou.
Foi também compreender a máxima do dizer dela: “se der, ame”. Bem, deu. Graças à Terezinha, amei e derramei. Mas se não desse, se a vida não me oferecesse condições, amaria mesmo assim. É por isso que todas as palavras aqui deitadas, todos os sentimentos aqui reunidos, todos os sonhos aqui guardados, tudo tem um propósito e está destinado a uma só pessoa, mesmo que ela não mais esteja aqui:
A você, Tereza.

Comunicólogo e mestre em Antropologia, é especialista em Jornalismo Político e Escrita Literária e tem MBA em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais. Foi repórter e editor dos jornais O Estado e O POVO, correspondente do portal Terra e colaborador do El País Brasil. Atua hoje como assessor de comunicação. Venceu o Prêmio Gandhi de Comunicação, o Prêmio MPCE de Jornalismo e o Prêmio Maria Neusa de Jornalismo, todos com reportagens sobre a população negra. No Ceará Criolo, é repórter e editor-geral de conteúdo. Escritor, foi finalista do Prêmio Jabuti de Literatura 2020.

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