18 de Abril, 2021
carmens e bia dote

Sobre redesenhos, vidas e cadeiras na praça

mahatma gandhiSaúde mental é um tema que pode (e deve) ser difundido por qualquer cidadão. E tem sido colocado em pauta por estudiosos, voluntários, especialistas e órgãos públicos. Muito embora datas sejam importantes, como é o Setembro Amarelo, a mobilização em defesa da vida precisa ser integral e irrestrita. Assim sendo, a solução pode estar na rua ou na praça mais importante da cidade

Com elevado número de pessoas que anualmente interrompem a própria vida, Fortaleza só agora deu início a uma política pública para lidar com esse tipo de ocorrência. No fim de agosto, a Prefeitura lançou um plano municipal de ações compartilhadas de combate à prática. Em nível estadual, a elaboração de algo do tipo ainda não existe. Segundo o Governo, está sendo discutida.

E é justo pelo fato de as iniciativas para preservação da vida precisarem aumentar que a sociedade civil tem se organizado. Assim, a causa ganha visibilidade o ano inteiro, não se restringindo ao Setembro Amarelo.

É o caso da Carmens, uma comunidade de ações criada por um psicólogo e professor universitário para promover mudanças no modo como nós, enquanto seres humanos, existimos e, assim, colaborar para a diminuição do elevado índice de pessoas com sofrimentos psicológicos (e que interrompem a própria vida).

O grupo é recente. Tem apenas seis meses e é composto por voluntários de diversas áreas do conhecimento. Entre profissionais e estudantes, são 27 pessoas que se reúnem mensalmente aos sábados num programa de formação básica sobre como redesenhar os modos de existência.

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Cavalcante Jr. (FOTO: Arquivo pessoal)

O mais importante: elas levam essa empatia pras ruas. São as “escutatórias”, realizadas por duplas, de forma gratuita e em locais públicos de Fortaleza. “Três opções se apresentam diante da temática da morte: fugir dela, fazer pregação sobre a morte e ficar na imagem da morte pra trabalhar seu simbolismo. A Carmens adotou a terceira opção. Os voluntários saem pela cidade escutando imagens que lhes chegam por quem deseja ser escutado. Nós ficamos com a imagem para o desenvolvimento de possibilidades enquanto narrativa simbólica”, detalha o coordenador da comunidade, professor Cavalcante Junior.

Qualquer pessoa pode participar de uma escutatória. Basta sentar (na cadeira ou sob a sombra de uma árvore) e abrir o que deseja da vida pros voluntários. O público majoritário até aqui, no entanto, tem sido de mulheres. Um importante indicativo quando se analisa que há duas décadas estão estabilizadas as taxas de indivíduos do gênero feminino que interrompem a própria vida. Ou seja: as mulheres terem desenvolvido disposição para falar sobre angústias tem ligação direta com a quantidade de casos não ter crescido.

Foi o inverso com os homens. De acordo com a OMS, as ocorrências com indivíduos do gênero masculino cresceram quase 300%, especialmente na faixa etária de 15 a 30 anos (os jovens). Um crescimento em parte associado ao fato de socialmente ser exigido do homem que não demonstre sentimentos ou fraquezas (exatamente como ainda (erroneamente) se tacha o sofrimento psicológico).

Para além de questões de gênero, estudos indicam que marcadores sociais (etnia, racismo, empregabilidade, homofobia, misoginia, acesso a serviços, renda, poder de compra etc) incidem diretamente no modo como nos relacionamos com o mundo – e, consequentemente, temos ou não direitos existenciais violados. Pessoas assim violentadas acabam mais suscetíveis a imprimirem no corpo a violência que recebem do mundo.

“Os espaços destinados às narrativas sobre o sentir precisam ser ampliados. Nós vivemos cada vez mais isolados e as existências humanas estão cada vez mais avulsas, desprovidas de conjuntos que se reúnam por temáticas comuns. Nas escutatórias, nós ouvimos narrativas sobre as dores do existir contemporâneo e do estado de inexistência das pessoas que as leva ao desejo de desaparecer dessa vida. Nós trabalhamos a possível transformação disso em outros modos de existência produzidos por essas próprias pessoas. Numas dessas escutas, uma adolescente perguntou à dupla que a escutava: ‘E o seu silêncio, há um mar nele?’”, acrescenta Cavalcante Junior.

Há situações nas quais uma única escuta é suficiente para enternecer pensamentos de quem busca ajuda. Noutros casos, no entanto, existe a necessidade de encaminhamento para serviços especializados, intervenção com a qual a Carmens não trabalha em nenhuma perspectiva (nem para indivíduos com ideários de autodestruição nem para pessoas que sobreviveram a um atentado contra si nem para familiares de quem interrompeu a vida).

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Escutatória. FOTO: Arquivo Carmens

“Muitas vezes, ao nos disponibilizarmos a ajudar alguém, estamos em busca de ajuda para as nossas próprias aflições. Ou de alguma ressignificação da nossa própria vida. Permiti que minha vida fosse atravessada pela existência de outras pessoas a partir do trabalho desenvolvido nas escutas. A experiência mais rica foi na Biblioteca Comunitária Barroso [bairro periférico de Fortaleza]. Nós ouvimos de adolescentes a adultos e foi de uma grande partilha para todos. Sempre tenho a sensação de que recebemos mais do que temos a oferecer”, testemunha a escritora Íris Cavalcante, voluntária da Carmens.

TERAPIA NA CIDADE
Outra iniciativa importante tem sido tocada pelo Instituto Bia Dote, uma Organização Não Governamental (ONG) sem fins lucrativos que há seis anos promove ações de valorização da vida. A logística é semelhante ao que faz a Carmens: cadeira em espaço público e disposição para ouvir quem quiser/precisa falar.

O projeto chama “Terapia na Cidade” e acontece toda semana. Começou em julho deste ano. Sempre aos sábados. Durante três horas, voluntários dispõem-se a escutar qualquer pessoa, de qualquer idade, que esteja passando por um momento difícil e necessite de acolhimento.

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“Terapia na praça”

A Praça do Ferreira, no coração de Fortaleza, tem sido palco dessas escutas terapêuticas, cujo caráter não é de atendimento psicológico – muito embora tudo seja conduzido por profissionais da Psicologia. Não é necessário agendar horário nem é feita triagem.

A escuta acontece por ordem de chegada. Das 9 horas ao meio-dia. Gratuitamente. “Buscamos que essa seja uma maneira de ampliar e facilitar o acesso aos cuidados em saúde mental”, argumenta o Instituto.

Ao contrário da comunidade Carmens, o Bia Dote trabalha com parentes de pessoas que tiraram a própria vida. Mas não dentro do “Terapia na Cidade”. Há para isso o que o IDB chama de Grupo de Apoio às Famílias Sobreviventes. Os encontros são quinzenais e acontecem às sextas-feiras (na avenida Barão de Studart, nº 2.360, sala 1.108, a partir das 19 horas).

Tem três anos que o grupo existe. Também é gratuito e também não necessita de inscrição prévia para quem deseja participar. É chegar, sentar e abrir o coração. Pros voluntários e pra vida. “Não importa se você perdeu alguém há muito ou pouco tempo. Aqui é possível falar e ouvir sobre sentimentos relativos ao luto, à morte e à vida de forma respeitosa e empática”, detalha o IDB.

Os próximos encontros acontecerão em 8 de novembro, 22 de novembro e 6 de dezembro. Todos são mediados por Lucinaura Diógenes, que criou o Instituto Bia Dote em 2013, em homenagem e para ressignificar a morte da filha, ocorrida em 2008 quando a garota tinha apenas 13 anos.

INFOGRÁFICO EM DESTAQUE: Rayana Vasconcelos.

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