Em 1966, o então presidente do Dacar, Leopold Sedar Senghor, propôs, durante o Festival Mundial de Artes Africanas, onde o Senegal foi saudado como a capital da civilização negra, a ideia de um museu sobre as civilizações da África negra. Cinquenta e dois anos depois, seu projeto se tornou realidade.

O Museu das Civilizações Negras (MCN) foi construído numa área de 14 mil metros quadrados, com capacidade para 18 mil peças e o objetivo de preservar os valores culturais do povo negro e ser uma nova forma de apresentação da África ao mundo, fora do modelo tradicional eurocentrado. O espaço possui uma cenografia moderna e dispõe de diversos recursos tecnológicos para dialogar pinturas, esculturas, máscaras, entre outras linguagens, além de um centro multiuso e auditórios. O visitante fará uma viagem desde o período Neolítico, passando pelo desenvolvimento das civilizações da Núbia, Egito, Etiópia, pela Idade do Ferro até o século XXI. As exposições inaugurais estão distribuídas em 7 ateliês, que estabelecem uma continuidade histórica da evolução do continente africano e suas contribuições para o patrimônio científico, técnico e cultural da Humanidade.

Entre as mostras expostas estão “Africa Now” (África Agora), de arte contemporânea, e “The Caravan and the Caravel” (A Caravana e a Caravela), sobre o comércio escravo através do Oceano Atlântico e do Deserto do Saara. “Women of the Nation” (Mulheres da Nação) retrata mulheres de ascendência africana, como a ativista americana Angela Davis. Na coleção, há ainda trabalhos de artistas do Mali, Burkina Faso, Cuba e Haiti.

Considerando o percurso histórico de colonização da África, marcado pela apropriação e fragmentação da história desses povos, expropriados de 90% de seus bens culturais, o museu pode funcionar como uma resposta no sentido reverso, iniciando um processo de descolonização da cultura negra africana a partir de um resgate de sua memória material e intelectual. Em novembro desse ano, já houve um movimento de especialistas propondo a restituição de grande parte dessas obras ao continente africano, através de um relatório dirigido ao presidente da França, Emmanuel Macron, contrariando a lei francesa baseada no princípio de que as coleções do patrimônio francês devem ficar no país para sempre. A questão fomenta o debate entre intelectuais, políticos, artistas e instituições sobre a lacuna etnográfica que esse deslocamento pode gerar nos museus europeus e as condições estruturais que os museus africanos teriam (ou não) para receber essas obras e preservá-las.

Por outro lado, o investimento de capital chinês na construção do MCN representa um indício de que interesses externos continuam a influenciar o lugar de fala das narrativas africanas. Mas se pode pensar também que parcerias como essa sejam um primeiro passo necessário frente aos desafios para que o povo negro possa finalmente se projetar como protagonista da sua própria identidade histórica.

Foto: MCN website

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