Educadora popular e assessora técnica da Cáritas Brasileira – Regional Ceará, Verônica Carvalho é uma das fundadoras do Grupo de Valorização Negra do Cariri (Grunec). É militante dos movimentos sociais, seja ele negro ou de mulheres, pelo fim da violência ou pela valorização da juventude. Uma guerreira de muitas bandeiras.

Formada em Biologia em São Paulo, desde a juventude está imersa nos movimentos sociais pelo fortalecimento de diversas pautas, multiplicando-se, somando. “Fui daquelas que peguei a Itapemirim (empresa de ônibus cearense). Não achei oportunidade aqui na minha terra e por um tempo fui pra São Paulo. Trabalhei, estudei e voltei pra minha terra e aqui a gente vive na luta”, afirma.

No Cariri, a descendente de quilombolas seguiu lutando. Para os próximos anos, a expectativa é de mais luta. “A gente precisa realmente não soltar a mão de ninguém, articular a rede. Isso fortalece a luta. Ou a gente luta ou a gente se lasca. Mais ainda, né? Não tem saída não; é se juntar. Quando a gente se junta, o poder se espalha.”

Num bate-papo com o Ceará Criolo, Verônica reforça a necessidade de união e luta. Da importância de não esquecer da ancestralidade. Demonstra, em cada palavra, a força para lutar por uma vida mais digna para todos e resistir a qualquer tipo de retrocesso em termos de direitos. “Uma democracia tão frágil ainda que a gente vive. Muita luta pra conseguir e, de repente, a gente tem que começar tudo de novo. Quanto tempo vamos demorar? Trinta anos? Talvez a gente não tenha mais oportunidade de vivenciar, mas não é por isso que a gente deixa de lutar.”

Ceará Criolo: Verônica, você é considerada uma militante histórica no Cariri…
Verônica Carvalho: 61 anos, né? (risos). Começa assim: todo preto e toda preta tem que matar um leão por dia, viu? Porque a vida toda é essa: de resistência, de luta pra ser afirmar enquanto sujeito de direitos. Veja a questão do racismo: o que a criança sofre na escola. Então, só vem crescendo. Por isso que a vida dos pretos e pretas é uma luta cotidiana.

CC: Como começou sua história de militante?
VC: A minha luta ainda foi adolescente. Eu já militava no movimento de crianças e adolescentes, não existia nem o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), mas a gente já tava envolvida naquela história de clube de jovens, muito ligado à Igreja Católica, mas que ia pra além da igreja. No nosso bairro, a gente reunia os jovens e fazia um debate, uma luta, sobre as demandas da juventude.

Começou com criança e adolescente, depois a gente vai estudando e, de repente, você precisa entrar no mercado de trabalho. Aí foi quando eu comecei a sentir o impacto; comecei a tomar consciência do que é racismo, do que é machismo… Foi quando precisei entrar no mercado de trabalho, com 18, 19 anos…

O racismo que eu passei foi uma coisa tão terrível que eu não tive outra saída. Ou eu me indignava e partia pra luta ou eu, sei lá, ia aceitar que eu era pessoa menor, que eu não servia pra isso ou praquilo. E eu resolvi enfrentar, me organizando, participando de grupo e aí começou. Foi muito por conta das violências que a gente sofreu. Aquela história da Febem, Funabem, Febemce… Fui monitora nesses espaços, entrei no movimento de mulheres, no movimento negro e tô até hoje.

CC: Falando de luta e movimento de mulheres e movimento negro, seu nome costuma estar associado ao Grunec…

VC: O Grunec só tem 18 anos. Não vou lhe dizer que minha luta começou com o Grunec. Eu sou daquelas que quando pegava o jornal e lia “precisa-se de moça de boa aparência”. Então, meninas negras não tinham boa aparência. Se você é negra, você não podia sequer saber daquele emprego. Foi muita luta pra retirar dos jornais esse tipo de coisa de boa aparência. Houve uma luta grande, especialmente em São Paulo, no Rio de Janeiro. O movimento negro lutou muito pra retirar essa história de boa aparência.

CC: E como conciliar tantas lutas?

VC: É o jeito. A gente não tem saída não. Antes de ser do Grunec, eu era do movimento de mulheres. Foi exatamente pra pautar as demandas das mulheres negras que a gente teve que se reinventar enquanto movimento. Se não, não vinham as demandas das mulheres negras e ficava sempre na periferia da periferia.

A gente resolveu, aqui no Cariri, organizar um grupo e trazer essa pauta também das mulheres negras. O Grunec é o Grupo de Valorização Negra do Cariri. Então, uma das bandeiras de luta é a questão das mulheres negras. Antes, eu era muito mais atuante no movimento de mulheres e nós precisamos nos organizar no movimento negro pra trazer as pautas da juventude negra, das mulheres negras, porque os outros movimentos não priorizavam.

Nessa perspectiva, a gente precisou fazer um esforço tremendo pra integrar as ações. Onde a gente podia integrar as ações, a gente integrava. Aí o pessoal dizia: “como vocês conseguem estar em tantos lugares?” É a necessidade mesmo. Pra estar em todo lugar, pra ver as nossas pautas serem consideradas.

Tem muita essa história de política para o povo do semiárido. Água, combate à seca, convivência com o semiárido. Quem é o povo do semiárido brasileiro? Qual a cara? Eles também têm a nossa cara, preta, linda. Se você não ocupar esses espaços, você não vê as demandas do povo quilombola, do povo das periferias. Você não vê a demanda dentro do espaço, que é importantíssimo.

Espaço de saúde, por exemplo. Se você não estiver nesses espaços, não rola. Você tem uma política nacional de saúde da população negra que não é implementada em nenhum município nesse estado. Existe uma política nacional construída com base nas diretrizes do SUS. Incidência de diabetes, câncer, anemia falciforme. Se você não ocupar os espaços pra trazer essas demandas pra pauta cotidiana, ninguém fala nada.

A gente aqui no Grunec começa a se dividir e ocupar espaços. Educação, assistência, saúde, segurança e trazer as pautas dos pretos e das pretas.

CC: A luta e a resistência são cotidianas, de várias formas, em vários espaços…

VC: Nunca foi nada fácil pro povo negro. Tudo que chegou pra gente de políticas públicas foi a custo de muita luta. Por exemplo: essa famigerada Lei 10.639, que a gente luta há tanto tempo pela implementação. Eu não tenho medo de luta não, viu? Porque a vida inteira nossa, do povo negro, foi de muita luta e resistência. São coisas que estão juntas.

CC: Ao que parece, vamos precisar de muita luta nos próximos anos…

VC: Esses dias, tava conversando com uma amiga sobre sustentabilidade. Olha, pra mim, pra nós aqui do Grunec, é fundamental a sustentação da nossa missão de valorização dos negros e negras. Sustentar a nossa missão de luta, de resistência, por uma vida digna, onde negros e negras tenham a garantia de direitos. A gente trabalha sustentabilidade nessa perspectiva de resistência. Nós resistiremos para garantir os nossos direitos. Direito de ter uma vida digna, de viver bem.

Nossa perspectiva pros próximos anos é dizer que a gente precisa estar junto. Precisamos nos fortalecer, cuidar uns dos outros, cair pra cima mesmo. Lutar por essa tal de cidadania, de vida digna, compreendendo que a cidadania se dá nas ruas, nas praças, e não dentro dos quartos.

CC: Um ponto que gostaríamos de abordar é a experiência dos negros no Brasil, no Cariri. Gostaríamos de falar dessa luta e resistência cotidiana…

VC: Primeiro, não é fácil. Ser negro no Brasil, pra mim, Verônica, é principalmente uma questão política. É uma dívida que a gente tem com a nossa ancestralidade. É uma dívida que a gente tem de lutar por uma vida melhor. Não é fácil ser negro no Brasil, viu? Tudo é um compromisso político, com meus avós, por tudo aquilo que eles vieram e passaram, com Dandara, com Zumbi. Ser negro no Brasil é resistência. É existir. É resistir.

CC: A questão da negritude, do reconhecimento enquanto pessoa negra é um assunto que vem sendo abordado atualmente. Você passou por essa experiência?

VC: Eu nunca me vi diferente de ser mulher negra. Sou de uma família negra, descendente de escravos, que hoje estão em uma comunidade quilombola. Portanto, eu descendo do povo quilombola. De um povo que luta. De um povo que sabe realmente o que é ser negro no Brasil, que é viver cotidianamente sobre olhares vigilantes da sociedade. E a gente sabe muito bem disso quando entra no shopping, quando entra em lugares que parecem que não foram feitos para nós. Então, eu não saberia conceituar de uma outra maneira. Eu vivi isso. Vivi com uma família negra, de avós e bisavós.

Nunca me senti fraca. Muito pelo contrário. Se minha avó, se minha bisavó resistiram, o meu compromisso político é com essa ancestralidade; o meu compromisso político é de transformação da sociedade. É não permitir que minhas sobrinhas, filhos de amigos, passem pelo desconforto que eu passei e vejo outras pessoas passarem. É luta mesmo.

Deixe um comentário

Categories: Entrevistas

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *