É acreditando na potência transformadora das mulheres negras brasileiras na sociedade que Maria de Lourdes Vale Nascimento, assistente social, ativista e jornalista negra pauta seu discurso para instigar a participação das mulheres negras de seu tempo na política. E a força da sua fala continua inspiradora.

Mesmo tendo sido uma figura feminina de destaque no Movimento Negro nos anos 1940 e 1950 e pioneira ao reivindicar, nos seus textos, a regulamentação dos direitos trabalhistas das empregadas domésticas, Maria Nascimento não têm o reconhecimento merecido fora dos estudos voltados especificamente para a imprensa negra pós-abolição da escravatura ou para pensadores negros e negras. Ainda assim, seu trabalho é abordado de maneira muito superficial e sua trajetória vinculada ao ator e jornalista Abdias Nascimento, de quem foi esposa e companheira de militância – o que desqualifica sua imagem ou desmerece a sua competência, mas tende a diluir o seu protagonismo.

A história da mulher negra no Brasil ainda não foi devidamente narrada, trata-se de uma lacuna que precisa ser contemplada.

Pollyanna Fabrini, diretora de Igualdade Racial da Prefeitura de Uberlândia, no artigo “A marginalização das mulheres negras na história”

A história de Maria Nascimento é um exemplo dessas histórias não contadas. Por isso, alinhamos aqui a fala de mulheres que podem reconstruir essa narrativa, além da própria Maria.

A primeira vez que travei contato com Maria de Lurdes Vale Nascimento foi nos idos de 2005, quando participava como pesquisadora do projeto para a escrita do livro Mulheres Negras do Brasil. Como professora especialista na história das mulheres negras, já naquela ocasião intrigava-me o silêncio acerca da trajetória de uma figura feminina que, em 1944, na companhia do jovem ator e ativista Abdias do Nascimento, fundara no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, o memorável Teatro Experimental do Negro (TEN) e, quatro anos depois, seu veículo de comunicação – o jornal Quilombo: vida, problemas e aspirações do negro. 

Giovana Xavier, Professora Adjunta de Ensino de História da UFRJ, no artigo “Fala a mulher” ou a mulher também fala? Maria de Lurdes Vale Nascimento e as articulações entre gênero, raça e classe no jornal O Quilombo (Rio de Janeiro, 1948-1950)”

Uma das fundadoras do TEN e diretora/gerente do jornal Quilombo, Maria Nascimento teve voz ativa para além das páginas da publicação. De acordo com a pesquisadora Joselina Oliveira, no artigo Vozes soantes no Rio de Janeiro, São Paulo e Florianópolis: mulheres negras no pós 1945, a assistente social defendeu a realização de estudos que permitissem atentar para os problemas de ordem psicossocial da prostituição e pelos direitos das empregadas domésticas no I Congresso do Negro Brasileiro, denunciando também as influências do racismo na manutenção dessas relações precarizadas de trabalho.

“É inacreditável que numa época em que tanto se fala de justiça social possa existir milhares de trabalhadoras como as empregadas domésticas, sem horário de entrar e sair do serviço, sem amparo na doença e na velhice, sem proteção no período de gestação e pós-parto, sem maternidade e sem creche para abrigar seus filhos durante as horas de trabalho”

Fala a Mulher, Jornal Quilombo, ano I, n. 3, Rio de Janeiro, julho de 1949

Maria Nascimento foi responsável por diferentes atividades no interior do TEN. Em maio de 1950, coordenou o departamento feminino e criou o Conselho Nacional de Mulheres Negras.

O Conselho contava com um departamento jurídico para atendimento à população negra em várias necessidades, entre elas a obtenção da certidão de nascimento. Criou também um balé infantil, cuja aula inaugural foi ministrada pela famosa bailarina afro-americana Katherine Dunkan.

Joselina Oliveira

Como colunista do jornal Quilombo, Maria Nascimento atuou na luta contra a discriminação no período no qual a publicação circulou, entre dezembro de 1948 e julho de 1950. Se temos poucas informações sobre sua biografia, suas colunas permitem termos acesso às suas lutas.

Se nós, mulheres negras do Brasil, estamos mesmo preparadas para usufruir os benefícios da civilização e da cultura, se quisermos de fato alcançar um padrão de vida compatível com a dignidade da nossa condição de seres humanos, precisamos sem mais tardança fazer política […]

Fala a Mulher, Jornal Quilombo, ano II, n. 6, Rio de Janeiro, 1950

Por meio da coluna Fala a Mulher, a ativista promovia debates políticos  sobre conscientização das desigualdades raciais e de gênero. Sua coluna era destinada  à participação política das mulheres negras e naquele período já despertava ideias inovadoras, conscientizando e estimulando a importância da mulher negra na vida política, segundo Pollyanna Fabrini.

“Sua voz se fez audível em diferentes edições do referido jornal, procurando cobrir temas da atualidade, sempre se dirigindo às mulheres negras. Sua crítica social assumia um tom de reivindicação e denúncia”, destaca Joselina Oliveira. De acordo com a pesquisadora, a coluna era uma conversa que se renovava a cada edição, sempre com vistas a conclamar as afro-brasileiras para a participação coletiva em prol da luta anti-racista.

No percurso de Maria Nascimento podemos perceber o quanto sua visão expandiu as discussões sobre importantes questões sociais e direitos fundamentais referentes à população negra que até hoje carecem de soluções mais efetivas. Isso numa época em que a imprensa negra era marcada pelo predomínio do protagonismo masculino, sendo as mulheres sutilmente desencorajadas da participação inclusive dentro do próprio Movimento Negro. Mesmo ocupando espaços específicos para suas questões, desempenhavam atividades consideradas menos importantes pelos homens, mas que foram fundamentais para a manutenção de movimentos como a Frente Negra Brasileira, como aponta a professora e pesquisadora Socorro Saraiva, em seu artigo A invisibilidade da mulher negra na imprensa negra no Brasil: uma questão de gênero.

Assim, acreditamos que a fala de Maria Nascimento ainda ecoa e reverbera nas (re)ações de diversas mulheres, Marias, Marielles, Mahins.

 

[Post colaborativo de Rayana Vasconcelos e Rafael Ayala]

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